O sonho de vestir um jaleco branco e exercer a Medicina transformou-se em uma batalha diária para a fisioterapeuta Renata Dahe, de 49 anos. Após precisar interromper a graduação por causa de uma dívida de aproximadamente R$ 200 mil com a universidade, ela encontrou na venda de biscoitos amanteigados uma forma de arrecadar recursos para voltar às salas de aula e concluir o curso.Moradora de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, Renata cursava o nono período de Medicina quando a instabilidade financeira da família tornou impossível manter o pagamento das mensalidades. Segundo ela, o marido, responsável pela principal fonte de renda da casa, perdeu o emprego três vezes durante o período em que ela estudava, comprometendo completamente o orçamento familiar.”Todo mundo sabe o quanto custa uma faculdade de Medicina. As coisas estavam caminhando bem, mas a situação financeira mudou completamente e não conseguimos mais acompanhar os pagamentos”, relata.O sonho de se tornar médica acompanha Renata desde a infância. Filha de uma técnica de enfermagem, cresceu observando a dedicação da mãe aos pacientes e encontrou nessa convivência a inspiração para seguir a carreira na área da saúde. Anos depois, estudando sozinha para o vestibular, conquistou uma vaga no curso de Medicina oferecido pela Universidade de Taubaté (UNITAU), no campus de Caraguatatuba.Apesar de ser uma universidade pública municipal, a UNITAU cobra mensalidades. Sem acesso ao Fies e impossibilitada de aderir ao programa de financiamento da própria instituição — que exige pagamento parcial das mensalidades e apresentação de fiador — Renata viu a dívida aumentar até atingir cerca de R$ 200 mil.Para conseguir renovar a matrícula, ela precisa quitar pelo menos 20% do débito, além do valor da matrícula do novo semestre. Mesmo assim, reconhece que ainda enfrentará o desafio de arcar com os custos dos períodos seguintes.Sem bens para vender e determinada a não abandonar o sonho, Renata decidiu transformar uma receita de família em fonte de renda. Os biscoitos amanteigados, ensinados pela cunhada, passaram a ser produzidos em diferentes sabores e comercializados em embalagens de 100 e 400 gramas, com preços entre R$ 18 e R$ 65.Além das vendas pelas redes sociais, ela percorre o comércio local, o calçadão e a orla de Caraguatatuba oferecendo os produtos, especialmente durante a alta temporada, quando espera ampliar as vendas.A história ganhou repercussão nas redes sociais e passou a mobilizar pessoas de diferentes cidades. Muitos consumidores compram os biscoitos como forma de incentivo, enquanto outros realizam doações espontâneas após se identificarem com sua trajetória.”Eu não fiz nada errado. Só estou tentando realizar um sonho. Se eu precisar vender biscoitos durante um ano inteiro para voltar à faculdade, eu vou vender”, afirma.Mesmo diante das dificuldades financeiras, Renata mantém viva a esperança de concluir a graduação e exercer a profissão que escolheu ainda na infância.Sua história tornou-se símbolo de perseverança e demonstra que, para alguns estudantes, a conquista do diploma exige muito mais do que dedicação aos estudos: exige coragem para enfrentar adversidades, reinventar-se e seguir acreditando que o sonho ainda pode se tornar realidade.
Estudante de Medicina vende biscoitos para tentar quitar dívida de R$ 200 mil e retomar o sonho de se formar médica